terça-feira, 17 de janeiro de 2012

terça-feira, 8 de novembro de 2011

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Que tipo de formação estamos oferecendo aos brasileiros? (artigo final)

Na antiga civilização grega, Platão propôs um modelo de educação que, a seu ver, seria o ideal para os detentores do conhecimento, os intelectuais da Grécia. Nesse esquema educacional, a música seria disciplina fundamental, pois estaria inserida no nível elementar (música, ginástica e gramática) que compreendia os estudos até os vinte anos de idade. Ela também seria matéria obrigatória do nível secundário de educação (aritmética, geometria, astronomia e música) que era voltado para estudantes entre vinte e trinta anos de idade.
            Os benefícios do estudo da música são analisados há séculos por cientistas e intelectuais. Através de observações realizadas por doutores em música, físicos, neurologistas, educadores, e profissionais de tantos outros setores acadêmicos, sabe-se hoje que os estudantes de música são mais capacitados para a vida do que os demais. Os gregos acreditavam que a música educava, influenciava as pessoas e era fundamental na formação do jovem para o exercício da cidadania.
             O estudo da música clássica, através da leitura de partituras e desenvoltura nos instrumentos musicais, torna a criança e o adolescente mais sociáveis. Inúmeras pesquisas ao longo do século XX mostram a música como influenciadora direta na autodisciplina dos estudantes. Essa arte desenvolve a paciência de quem a pratica, a sensibilidade, a coordenação motora e a capacidade de memorização e concentração. Alguns pesquisadores acreditam que a música é uma forma superior de ensinar o conceito de frações.
Segundo um estudo realizado por uma Universidade do Texas, estudantes de música têm menos problemas com álcool e drogas, são emocionalmente mais saudáveis e se concentram melhor em salas de aula. Muitas nações, que investem profundamente na Educação, têm a música como disciplina obrigatória em todas as escolas. No Japão, por exemplo, o estudo da música está no mesmo nível de importância que o ensino da matemática.
Talvez o Brasil sofra tanto com o consumo crescente do crack e vício do álcool entre jovens porque nossos políticos ainda não acreditam que a arte bem estudada, em especial a música, seja um fator essencial para o desenvolvimento social e, consequentemente, crescimento econômico da nação. Locais violentos, como a favela do Coque, localizada em Recife, têm apresentado significativas mudanças de comportamento social depois da implantação do ensino da música para crianças, adolescentes e jovens.
A Escola de Música Anthenor Navarro, razão da criação desta revista, é exemplo do quanto nossos políticos não se importam com a formação do ser humano. Os governantes brasileiros ainda não atentaram (ou fingem desconhecimento) para a tamanha importância de uma boa formação cultural como base para o desenvolvimento social de seu povo. Talvez seja o medo de não conseguirem mais manipular os brasileiros, já que a aquisição do conhecimento proporciona liberdade intelectual, exigência dos direitos de cidadania e minimiza a manipulação dos poderosos sobre a população.
Através da lei 11.769, sancionada em 18 de agosto de 2008, pelo Governo Federal, o Brasil tem a oportunidade de transformar a cruel realidade das nossas crianças e adolescentes das áreas consideradas de risco. Através dessa lei, o ensino da música passa a ser obrigatória em todas as escolas públicas e particulares, tendo que ser introduzido nas instituições de ensino até o ano de 2011. Isso pode proporcionar aos jovens uma mudança de mentalidade no que diz respeito ao conceito sobre vida e sociedade, além de afastá-los da criminalidade.
Cabe agora aos intelectuais brasileiros, aos políticos e formuladores da campanha, em prol da construção dessa lei, se empenhar nesse projeto maior de transformação social. Cabe aos comunicadores e às mídias incentivarem o estudo da música, mas não só da música, como também das artes plásticas, do teatro, da pintura, enfim, apoiar o desenvolvimento da cultura em uma sociedade afundada no capitalismo desumano, desproporcional, gerador das desesperanças sociais dos menos favorecidos.
 Platão já dizia que a música é o instrumento educacional mais potente do que qualquer outro. Precisamos apenas impulsionar esse poderoso instrumento e acabar, de uma vez por todas, com o pensamento ínfimo de que a educação clássica, ensinada nas salas de aula brasileiras, é o suficiente para fornecer uma formação humana completa aos nossos cidadãos. 

CURIOSIDADES DA PÁGINA 19:

O MITO DO EFEITO MOZART: Na década de 1990, resultados preliminares de uma investigação científica deram origem ao famoso “Efeito Mozart”. Os cientistas compararam o desempenho de ratos de laboratório com o de estudantes universitários. Ambos foram submetidos à presença de peças de Mozart e Philip Glass. Os pesquisadores concluíram que a audição da música de Mozart causava um progresso temporário nas habilidades espaciais de seus participantes.
            O “Efeito Mozart” causou polêmica nas rodas científicas. Os pesquisadores que tentaram replicar a conclusão do estudo não conseguiram, até hoje, registrar nenhum resultado contrário ao já obtido. Mas os responsáveis pelo estudo que originou o “Efeito Mozart” se equivocaram em um ponto: eles tomaram as habilidades espaciais como sinônimo de inteligência humana. Sabe-se hoje que a inteligência é uma junção de várias habilidades e a espacial é apenas uma parte deste conjunto.

CONTRA O MAL DE ALZHEIMER: A região direita do cérebro é a responsável por guardar as informações na memória de longo prazo. É nesse lado que trabalhamos com a imaginação criativa, a serenidade, a visão global, a capacidade de sintetizar e facilidade de memorizar. A música e as artes, em geral, trabalham intensamente com o lado direito do cérebro. Quando exercitamos a vida inteira apenas um dos lados cerebrais, pode surgir, em nossa velhice, doenças degenerativas, como o Mal de Alzheimer, devido a isso, os médicos recomendam que os idosos realizem atividades artísticas variadas para equilibrar o funcionamento cerebral e assim manter a saúde mental.
                                     
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Alunos postos à prova - Audições internas: a música tocada pela EMAN


Respiração ofegante, coração acelerado. Mãos que tremem, que suam. Olhar esperto, choro, náuseas, febre. Características fisiológicas de alguém provavelmente doente se não fossem sintomas apenas momentâneos. As apresentações musicais revelam estudantes que passam por esse sofrimento ao se depararem com público. Mas as audições internas da Escola de Música também descobrem alunos desinibidos e talentosos.
            O auditório Gerardo Parente, localizado na Escola de Música, foi construído para que os alunos da EMAN realizassem apresentações públicas. No local, conhecido também como Salão Dourado, são realizadas as audições internas. Essas exibições musicais são obrigatórias para todos os estudantes de instrumento e canto. “Isso é muito importante porque os alunos vão perdendo a inibição e a gente sabe que quem estuda algum instrumento vai se apresentar algum dia em orquestras ou como solistas, e até mesmo em igrejas”, afirma Nadja Amorim, coordenadora de instrumentos de sopros. “Os alunos também têm a oportunidade de verem outras pessoas tocando e percebem que errar é natural em apresentações públicas por causa do nervosismo”, acrescenta.
            Alguns músicos chegam a não conseguir tocar as peças que estudaram durante quase seis meses. O nervosismo é natural em apresentações até certo ponto. Para a psicóloga Lynne Henderson, da Clínica dos Tímidos de Palo Alto, na Califórnia, a maioria dos tímidos não são pessoas doentes. Apenas 2% deles desenvolvem a fobia social, que é uma aversão ao público de maneira exacerbada. Ela acredita que o ideal é que os tímidos contrariem sua própria natureza e parem de pensar que estão sempre sendo observados.
            Alguns alunos choram em público por não conseguir o autocontrole emocional durante a audição. A maioria deles afirma que o motivo maior da insegurança é a pressão dos professores avaliadores e do próprio público, composto, em sua maioria, por estudantes de música. “Não gosto de audições. A questão da hierarquia entre professor e aluno e, sobretudo, o medo de errar afetam muito o emocional. Mas acho fundamental haver apresentações, se bem que acredito que o ideal seria práticas em grupo”, opina Jobson Francisco, estudante de flauta transversal.
            A professora Nadja não acredita que o fato de serem avaliados seja o motivo do nervosismo dos alunos durante as apresentações. “Não creio que a razão para insegurança seja a nota na caderneta que colocamos ao analisarmos a performance deles. Às vezes eles ficam tão temerosos por causa do público que nem se lembram desse detalhe”. A professora de piano Glenda Romero afirma que essas exposições são frequentes nas instituições de ensino da música. “Não é apenas a EMAN que obriga os alunos a tocarem em audições internas. Todas as escolas de música fazem isso para que os estudantes mostrem ao público o trabalho realizado e como está o desenvolvimento deles no instrumento”.
Uaná Vieira acredita que as audições internas treinam os alunos para apresentações maiores. “Essas exibições são importantes para treinar os futuros alunos da Universidade, integrantes de orquestras e para posteriores concertos”, acredita Uaná, que não nega o nervosismo durante as audições, mas afirma nunca tocar por obrigação, mas por amor à música.
Mas alguns alunos enxergam nas audições o meio de mostrar às pessoas quanto sabem tocar. São instrumentistas desinibidos que gostam de palco e público. Héber Jamim, de apenas 13 anos, vencedor da II Gincana Pianística da EMAN, afirma ter ficado nervoso apenas durante a primeira vez que se apresentou. “Ficar nervoso é natural no início, mas eu gosto muito de me apresentar porque isso vale como experiência, até para futuros concursos”.
A professora Glenda Romero, que também foi aluna de piano na Anthenor Navarro, comenta sobre a timidez dos alunos. “Para alunos tímidos a situação é ainda pior, mas sabemos que nervosismo é natural e em alguns casos é realmente necessário um tratamento, porque temos que aprender a enfrentar as coisas, primeiramente o piano e depois as situações da própria vida”.

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Musicoteca Luzia Simões Bartolini - uma biblioteca musical


As melhores escolas do Brasil mantêm em suas dependências pelo menos uma biblioteca que auxilie seus alunos com as disciplinas ensinadas em salas de aula. Nas instituições de artes e música não é diferente. A EMAN possui um acervo de partituras, CDs, discos e livros fundamentais para o bom desempenho de suas funções educativas.
Costinha, professor de saxofone, afirma que toda escola de música deve ter uma discoteca ou musicoteca. Segundo ele, os docentes ensinam também sobre a história do instrumento, que está vinculada a sua origem, desenvolvimento e repertório musical. “É fundamental ter um local como esse para que o aluno possa pesquisar sobre o instrumento que ele está estudando, sobre as obras que ele venha a tocar, ou sobre a história da música nos diversos períodos”, explica Costinha.
            A Musicoteca da Anthenor Navarro sempre existiu com o nome Biblioteca Musical. Em 1986, ela foi batizada de Musicoteca Luzia Simões Bartolini. Recebeu diversas partituras de músicos ao longo de sua existência. Compositores estrangeiros e brasileiros, inclusive o pianista paraibano José Siqueira, têm suas obras disponíveis para que os alunos possam estudá-las. Isso é possível através de cópias realizadas nas dependências da Musicoteca. A EMAN tem autorização para poder fazer as reproduções dos originais das peças. O intuito é não prejudicar seus alunos por causa da dificuldade de encontrar partituras no Nordeste, e por ser financeiramente acessível a todos.
            A reprodução das partituras não é um serviço comercial, mas está disponível aos que estudam ou ensinam na Escola de Música. A EMAN não trabalha com empréstimos por causa do alto índice de perda de partituras, livros e CDs que ocorreram anos atrás. Há casos de exceção, quando uma pessoa responsável e qualificada tem muita necessidade e urgência do empréstimo. Nesse caso, o profissional assina um termo de responsabilidade por qualquer dano que possa causar ao objeto.

O acervo

Centenas de peças brasileiras foram cedidas à Escola de Música pela família do professor e pianista Gerardo Parente, morto em 2003. O músico, nascido em Fortaleza, conheceu a Paraíba em 1947, quando ficou impactado pelo alto nível das bandas de música e pelo movimento musical que existia em João Pessoa. Gerardo Parente foi um dos melhores pianistas na área de acompanhamento com instrumentistas e cantores líricos do Brasil. Conheceu Villa-Lobos e recebeu todas as instruções do compositor a respeito da interpretação de suas músicas, por isso Gerardo foi considerado um dos maiores intérpretes de Villa-Lobos.
Gerardo Parente também se especializou nas composições do brasileiro Ernesto Nazareth, cujas obras eram interpretadas constantemente em João Pessoa. Tocou nos Estados Unidos e nas principais cidades do Brasil. Em 1957, a convite da diretora da EMAN, Luzia Simões, torna-se professor de Música Brasileira e de piano na Escola de Música, mudando-se definitivamente para a Paraíba. “Ele tinha uma cabeça muito aberta e visão ampla que passava para todos. Era um grande pianista e co-repetidor de talento descomunal. Sua maior contribuição foi humana, pedagógica e musical”, afirma a atual diretora Vólia Simões.
Gerardo foi professor fundador do Departamento de Música da UFPB. Todo seu acervo de partituras, CDs, livros e discos foram doados à EMAN, o que fez da Escola uma das maiores detentoras de partituras brasileiras. Segundo o maestro Luís Carlos Durier, a Musicoteca Luzia Simões Bartolini, “é um dos grandes acervos de música do Nordeste e as pessoas não sabem disso. Pela EMAN passaram grandes professores de piano, violão, além de outros instrumentos e, consequentemente, esses profissionais traziam seus materiais e indicavam bons livros e partituras para que a Escola de Música pudesse adquirir”. Raras peças musicais de compositores brasileiros, principalmente para piano, são encontradas no Memorial Gerardo Parente, anexo à Musicoteca.
Para o flautista e professor da EMAN, Marco Antônio, “a escola tem um acervo que é sensacional, em que muitas músicas são desconhecidas de vários profissionais, principalmente de piano, que basicamente são as partituras que a família de Gerardo Parente deixou aqui”. A coordenadora de sopros, Nadja Amorim, acredita que a importância da Musicoteca se deve ao fato dela ser tanto uma fonte de pesquisas quanto de utilidade para desenvolvimento de alunos e professores.
O acervo da biblioteca musical da EMAN cresce continuamente. Isso se deve porque pessoas que já passaram pela Escola de Música, e não necessitam mais das peças que possuem, doam suas partituras e livros para a Musicoteca. Além disso, a Anthenor Navarro tem adquirido materiais em lojas especializadas em música erudita. “Quando as pessoas querem fazer uma pesquisa e desenvolver algo, do repertório essencialmente brasileiro, recorrem à Escola de Música Anthenor Navarro”, assegura Luís Carlos Durier, esclarecendo o motivo da grande procura dos músicos paraibanos pelo acervo da EMAN.
A bibliotecária Maria Solange Pereira trabalha na Musicoteca desde que era estudante de Biblioteconomia. “Amo estar no meio musical e foi aqui onde pude aplicar muitos dos meus conhecimentos adquiridos na Universidade”, comenta Solange. Ela explica que o ambiente da Musicoteca precisa ser melhorado. “O acervo precisa ser automatizado, porque o processo de catalogação ainda é manuscrito, correndo risco de deterioração dos registros. Além do mais, se automatizado, encontrar nomes de compositores e de partituras será bem mais prático”.
A insuficiência de espaço para usufruto da Musicoteca é a principal dificuldade enfrentada. “Às vezes recebemos doações de livros e partituras, mas não há espaço para guardá-los. Além disso, precisamos de uma sala mais agradável, onde os funcionários possam ter mais aproximação com os alunos”, comenta Maria Solange. “É necessário melhorar a estrutura física também para que os músicos possam ter um ambiente melhor para estudar”, completa.
Os alunos com mais tempo de estudo musical são os que mais procuram a Musicoteca. Geralmente são solicitados partituras e CDs com gravações de profissionais que tenham tocado as peças que o estudante esteja estudando. Renomados músicos brasileiros como Arnaldo Cohen, Miguel Proença, Francisca Gonzaga, Heitor Villa-Lobos e também estrangeiros têm suas interpretações em CDs e discos disponíveis no acervo da Musicoteca. Interpretações de quartetos de cordas, orquestras, quintetos, duos, intérpretes solistas e corais podem ser encontrados na biblioteca musical.
Há centenas de compositores e 3.345 partituras no acervo da Musicoteca Luzia Simões Bartolini, sem contar com as centenas de peças musicais do Memorial Gerardo Parente, que ainda não foram catalogadas. O Memorial, anexo à Musicoteca, tem sido prejudicado pelo reduzido tamanho do local disponível para seu arquivamento. Há dificuldades em manter organizado o acervo por falta de espaço.
Também há na Musicoteca 647 títulos entre CDs, DVDs e discos de vinil. Existe uma tese de doutorado de Luceni Caetano referente à vida do músico e fundador da EMAN, Gazzi de Sá, e a história cultural da Paraíba entre as décadas de 1930 e 1950. Há quatro teses de mestrado relacionadas à música, além de uma monografia de pós-graduação. São 932 livros de assuntos sobre história da música, teoria musical e artes.
Os livros de história são os mais procurados pelos alunos no final do curso, pois há semestres que estudam apenas a história da música nos âmbitos internacional e nacional. Os estudantes podem ouvir os CDs nos aparelhos de som existentes na Musicoteca. Já os DVDs são utilizados pelos professores durante as aulas, pois seu conteúdo é voltado para história, alguns documentários e vídeos de intérpretes da música.
Há muitos alunos de música da UFPB, principalmente de cordas, que recorrem à Musicoteca em busca de partituras que não encontram na biblioteca da Universidade. “Nosso acervo também é muito requisitado por estudantes de outros estados como Rio Grande do Norte e Pernambuco que passam aqui em João Pessoa para fazer alguma gravação ou para estudar. Eles acabam encontrando as peças que tanto procuravam em suas cidades”, afirma Maria Solange.
A Musicoteca também é responsável por guardar instrumentos musicais que são emprestados aos alunos que ainda não possuem o seu próprio. Nesse caso, os pais do aluno que for menor de idade devem preencher um termo de responsabilidade. O estudante permanece com o instrumento em casa a fim de estudar e a Escola de Música utiliza a rotatividade. Durante certos dias na semana um aluno tem o direito de ter sob sua responsabilidade o violino, por exemplo, e depois deve repassá-lo ao próximo estudante. São disponibilizados violinos, violoncellos e violas. Também instrumentos de sopro, como flauta transversal, saxofone e oboé.

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O mundo lúdico da música - crianças em iniciação musical


Há diversas pesquisas mundiais que tentam comprovar a influência musical no desenvolvimento das crianças. No campo da Educação, alguns estudos contemplam a música como uma das responsáveis pelo maior equilíbrio emocional e desenvolvimento racional daqueles que a ouvem.
Monique Nogueira, professora da Universidade Federal de Goiás, elaborou o artigo “A música e o desenvolvimento da criança”. Nele, é afirmado que, por seu caráter relaxante, a música pode estimular a absorção de informações. Para a professora, doutora em Educação, essa arte potencializa a aprendizagem no campo do raciocínio lógico, da memória, do espaço e do raciocínio abstrato.
O interesse pelos efeitos da música no crescimento intelectual trouxe à tona questões referentes aos resultados da Educação Musical durante a alfabetização. Um estudo recente sugeriu que a percepção musical tem uma relação estreita com o desenvolvimento da leitura e com a ciência fonológica. A pesquisa acredita que crianças musicalizadas podem aprender a ler mais depressa.
Em um artigo da edição de 20 de setembro de 2006, da revista Brain, foram registrados resultados de um estudo relacionado à música. As averiguações são de cientistas canadenses que analisaram crianças entre 4 e 6 anos submetidas a lições musicais do método Suzuki. Foi constatado que essas crianças tiveram melhor desempenho em testes de memória do que as não musicalizadas.
A psicóloga Ana Emília Romero é a responsável pelo ensino da música para crianças entre 6 e 9 anos, na EMAN. Ela acredita que o ideal é que a criança entre em contato com a música logo na primeira infância (de zero a três anos). “É o período mais indicado para a recepção e reprodução dos sons, isso dado pela espontaneidade da resposta musical que caracteriza a maior parte das crianças. Se houver um retardo no contato com a música, as respostas musicais poderão apresentar dificuldades em fluir”, afirma Ana Emília.
A Escola de Música Anthenor Navarro disponibiliza vagas para crianças entre 6 e 9 anos no curso de Iniciação Musical. As aulas são divididas entre turmas A (6 anos), B (7 anos), C (8 anos) e D (9 anos). Os alunos estudam música de maneira lúdica e aprendem flauta doce. As crianças que entram na Escola através da Iniciação Musical passam diretamente para o primeiro período de musicalização, que é o início do curso da EMAN para os que não fizeram a Iniciação.
Segundo Ana Emília, as aulas têm o objetivo de desenvolver as capacidades musicais como percepção auditiva, senso rítmico, coordenação motora, senso melódico e apreciação musical. Além disso, também têm o intuito de sensibilizar as crianças de forma significativa ao fenômeno sonoro e seus elementos, como timbre, altura, intensidade e duração.
A artesã Maria das Graças do Nascimento colocou seu filho de 7 anos para estudar na Escola de Música por uma razão peculiar. “Quando eu estava grávida dele, ouvia muito um CD de música instrumental. Quando percebia que ele estava muito agitado, eu colocava esse CD e ele ficava bem calmo. Hoje ele gosta muito de ouvir música clássica, por isso resolvi colocá-lo na Escola de Música”, explica Maria das Graças.  “Sempre acreditei que a música mexe muito com nosso interior”, completa.
Sandra Mara Ricce, professora da UNIMEL, assegura que a música promove a autodisciplina da criança e estimula a consciência rítmica e estética. Ela acredita que a música atua no corpo e desperta emoções, por isso, é uma arte que equilibra o metabolismo, interfere na receptividade sensorial e minimiza os efeitos da fadiga, ou leva à excitação do aluno.
A professora Ana Emília, que também é flautista, percebe uma diferença entre as crianças que entraram em contato com a expressão musical mais cedo que as demais. “Por trabalhar com crianças há onze anos, percebo que as que estudam música há mais tempo são mais sensíveis ao som. Elas têm conhecimentos de seus elementos sonoros, talvez até sem saber que possuem. Provavelmente, por causa disso, tenham maior sensibilidade à música em geral”.
Maria de Fátima Teixeira ajuda Ana Emília nas aulas de Iniciação Musical. Ela afirma não ser tão fácil trabalhar com crianças, mas é gratificante. “Sinto-me realizada quando vejo as crianças tocando. Ensinar música é muito prazeroso”. A maior dificuldade está na falta de disciplina de alguns. Maria de Fátima explica que há uma diferença entre as crianças que já estão aprendendo música das que iniciam os estudos. “A diferença está relacionada com a coordenação motora. Para os que chegam depois, realizamos um trabalho diferenciado”, explica.
Ana Beatriz Araújo, com 10 anos, estuda música pela influência dos tios que são músicos. Ela está no primeiro período de musicalização e pretende tocar violino. “Meu sonho sempre foi tocar na Orquestra Sinfônica do Brasil”. A funcionária pública Madalena Araújo, resolveu colocar seu filho Marcos Eduardo, de 8 anos, na Iniciação Musical a fim de que a educação da criança fosse aprimorada. “Ele se tornou uma criança mais obediente”, afirma Madalena.
O advogado Franklin Furtado de Almeida tem dois filhos estudando na Anthenor Navarro, sendo um deles do curso de Iniciação Musical. “Acredito que a música seja algo bastante útil para o aprendizado por despertar a coordenação motora. Coloquei meus filhos na EMAN, sobretudo, porque sempre gostei da filosofia da Escola de Música, e por ser bastante renomada na área”.
Franklin Furtado também acredita que a música é um caminho para aproximar seus filhos ao âmbito cultural. “Meu objetivo também é que eles entrem em contato com pessoas da área musical, porque a música está muito vinculada à cultura, e cultura sempre leva a um bom caminho. Além disso, a música evita o ócio e afasta os jovens e as crianças de influências ruins que estão inseridas em nossa sociedade”.
Ana Emília afirma que é de responsabilidade dos pais incentivarem seus filhos à música desde cedo, através de cantigas de ninar, pois a sensibilização ao som e seus elementos se torna fundamental. “Cabe aos pais oferecer às crianças o contato com a música de forma lúdica e significativa, pois o interessante é que essa estimulação tenha significados e seja experiência de vivência musical verdadeira”, esclarece Ana Emilia. “Diria a todos os pais que estimulem e deem oportunidades musicais aos seus filhos o mais rápido possível”, conclui.

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Escola de Música Anthenor Navarro: 79 anos de resistência


Embalada pela melodia dos instrumentos de cordas, pela delicadeza das flautas e o vigor das canções, a Escola de Música Anthenor Navarro (EMAN) preserva, em si, um exemplo de força e resistência. A história dessa escola, que iniciou como instituição privada, expõe a luta de músicos, políticos dedicados à educação e apreciadores das artes. Eles tentaram posicionar o estado da Paraíba em patamares elevados no âmbito educacional e artístico. Não apenas tentaram, como conseguiram fazer desse estado um polo de educação musical reconhecido nacionalmente na década de 1930.
Cantos orfeônicos realizados por alunos das escolas públicas se apresentavam constantemente nas ruas de João Pessoa juntamente com a banda da Polícia Militar. Lideranças dos poderes judiciário, legislativo e executivo ouviam as canções das crianças e dos adolescentes durante eventos importantes. Logo apareceria no cenário da história da Paraíba um nome que se tornaria conhecido no Brasil, principalmente por ter acompanhado diversas vezes o músico Heitor Villa-Lobos. Eclodiria, em meio às mudanças políticas de 1930, o mestre da música e compositor, Gazzi de Sá.
“Gazzi de Sá foi um promotor cultural. Ele possuía na década de 1930 uma coluna no jornal A UNIAO que divulgava artistas plásticos, pintores, recitais de poesia e músicos. A cada semana tinham concertos habituais em João Pessoa, promovidos pela Sociedade Musical, que era uma sociedade organizada por Gazzi de Sá e alguns amigos para promover concertos e trazer músicos do Brasil e do exterior”, afirma a professora Luceni Caetano que, em sua tese de doutorado, destrincha a história cultural da Paraíba entre as décadas de 1930 e 1950. Segundo ela, os maiores artistas do mundo passavam por João Pessoa.
Como músico, Gazzi de Sá criou um método de ensino musical utilizado até hoje pela Escola de Música. Segundo Luís Carlos Durier, vice-diretor da EMAN, essa metodologia é uma forma de estudar a música prosodicamente, a compreendendo como conjunto de frases musicais que dialogam. “O método torna o estudo musical muito mais fácil porque a música é composta de frases contendo perguntas e respostas com ideias prefixadas através do ritmo. Pessoas que estudam com este método, analisando a música desta forma, têm uma leitura musical bastante desenvolvida”, explica Durier, que também é regente da Orquestra Sinfônica da Paraíba/Jovem.
Apreciador das artes e amigo de infância de Gazzi de Sá, Anthenor Navarro era o Interventor Federal da Paraíba quando o “Curso de Piano Soares de Sá”, criado por Gazzi de Sá, passou a ser chamado de “Escola de Música”. Isso aconteceu em 1º de fevereiro de 1931, considerado o dia de fundação da instituição. Com a morte do político, o músico, a fim de homenageá-lo, batiza a escola com o nome “Escola de Música Anthenor Navarro”, em 1932. Somente no governo de José Américo de Almeida, 21 anos depois, a EMAN se tornaria uma instituição pública.
Segundo Luceni Caetano, a Escola de Música Anthenor Navarro foi o principal órgão do ensino de música da Paraíba, pois todos os acontecimentos neste âmbito eram voltados para a EMAN ou organizados por ela. “O acontecimento mais importante de 1952 foi a criação do Conservatório de Música do estado, quando a EMAN tornou-se escola oficial da Paraíba. É interessante destacar que em todo o Brasil só existia Conservatório de Canto Orfeônico no Rio de Janeiro, criado por Villa-Lobos, e em São Paulo. Naquele ano, foi fundado o Conservatório de Canto Orfeônico da Paraíba, que passou a funcionar nas dependências da EMAN”, comenta Luceni que esclarece que o Conservatório de Canto seguiu em paralelo com a Escola de Música até 1963, quando finalizou seus trabalhos e a EMAN prosseguiu.
Para a diretora da Escola de Música, Vólia Simões, a EMAN ocupa posição importante na história cultural da Paraíba. “O movimento musical da Paraíba era totalmente voltado para a Escola e, além disso, era ela que promovia concertos na cidade, trazendo artistas nacionais e internacionais, gente importante que fez história no cenário musical”, afirma Vólia. Essas promoções culturais eram realizadas juntamente com a Sociedade Musical.
“Eu considero a Escola de Música uma das escolas mais eficientes na área de educação musical. É uma referência e herança criada por Gazzi de Sá”, afirma Luceni, que também explica as dificuldades enfrentadas pela instituição, por nunca ter conseguido um estabelecimento fixo. “Apesar de estar situada no Espaço Cultural, e aquele ambiente ser tão extenso, a EMAN encontra-se em local bem reduzido, mas tem conseguido realizar um bom trabalho, mesmo com todos os problemas estruturais”.

Dificuldades Estruturais: uma questão histórica ou política?

Anthenor Navarro havia projetado um edifício com estrutura compatível com as necessidades da EMAN. Contudo, por causa de sua morte repentina em um acidente de avião, no dia 26 de abril de 1932, o projeto não foi realizado. Até hoje, depois de 79 anos, a Escola de Música ainda não possui uma sede própria. “O governo precisa voltar a dar atenção à escola. A escola faz uma ‘ginástica’ [sic] enorme para funcionar. Manter uma escola aberta é muito pouco, o papel do governo não é manter uma escola aberta, mas incentivar”, desabafa Marco Antônio, professor de flauta doce.
Atualmente a Escola de Música se encontra localizada na FUNESC (Fundação Espaço Cultural), em João Pessoa. Sua estrutura é considerada imprópria para abrigar uma escola de música, pois o espaço é pequeno, não possui estrutura sonora adequada nem tampouco boa climatização. “Estou dando aula nesta sala que não é apropriada para o saxofone, pois não tem acomodação adequada e nem tratamento acústico e climatização adequados”, afirma Heleno Feitosa Costa Filho, conhecido na Paraíba como Costinha, professor de saxofone e fagote.
Para Costinha, que também é instrumentista da Orquestra Sinfônica da Paraíba, essas dificuldades estruturais influenciam na desenvoltura do profissional e também do aluno. “A escola está necessitando de um local próprio e adaptado às suas necessidades para melhor desempenho da função dos profissionais que aqui trabalham”, prossegue o músico, que tem seu trabalho reconhecido em todo o estado e fora.
Quando a Escola de Música foi implantada, Anthenor Navarro cedeu uma casa pertencente ao poder público para seu funcionamento, embora ainda fosse uma instituição particular. Foram fornecidos quadros-negros, cadeiras, mesas e carteiras. O professor Gazzi de Sá transportou seu próprio piano para a Escola, a fim de utilizá-lo durante as aulas. Com a morte do político, o músico prossegue sem incentivo governamental e a escola inicia uma crise estrutural que permaneceria por toda sua história.

O início de uma peregrinação

O governo do estado solicita a desocupação da casa para instalar a Guarda Civil naquele local. A escola se desloca para a residência dos pais de Gazzi de Sá e, logo em seguida, para a casa de Gazzi de Sá, em 1936. Em sua residência, ele leciona juntamente com sua esposa, Ambrosina de Sá, enquanto Luzia Simões, tia da atual diretora da EMAN, atuava na secretaria e era responsável pela iniciação do ensino. Nessa época, a Escola de Música era frequentada pela alta sociedade paraibana e oferecia também curso de balé.
Posteriormente, com o crescente número de alunos, a escola se muda para um ambiente maior. O local, que chegou a abrigar a antiga sede do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, é o mais lembrado pela população, sendo por vezes creditado como o primeiro prédio que instalou a EMAN. A escola permanece nesse prédio até 1947, ano em que Gazzi de Sá, sua esposa Ambrosina de Sá e seus dois filhos viajam para o Rio de Janeiro, onde passam a residir.
Com a saída do maestro para o Sudeste do país, a Escola de Música se torna responsabilidade de Luzia Simões, que assume todas as atividades musicais da Paraíba. Com mais de dez anos de existência, a EMAN já possuía professores que tinham sido alunos de Gazzi e passa a funcionar na residência de Luzia Simões, porém sem instalações adequadas. Por causa da falta de estrutura e crescimento do número de alunos, Luzia Simões pediu aos professores que lecionassem em suas próprias casas, mas a Escola de Música Anthenor Navarro continuou a existir como instituição.
O antigo problema estrutural é o mesmo enfrentado nos dias atuais. “A escola precisa de um espaço bem maior, porque a quantidade de alunos é imensa e, se falar somente em espaço físico de salas, não dá para atender todo mundo que queira aprender algum instrumento”, comenta Cyran Costa, professor de violão da EMAN e regente da Orquestra de Violões da Paraíba. Ele explica que a quantidade de estudantes frequentando aulas de teoria musical é bem maior do que as de instrumentos. Isso por causa da falta de estrutura física e ausência de professores suficientes para suprir a demanda. “É uma escola do estado e, portanto, deveria ter mais incentivo nesse sentido”, completa Cyran.
Em 1950, José Américo de Almeida vence as eleições e torna-se governador da Paraíba. Sua amizade com Luzia Simões fez o político devolver à escola a casa cedida por Anthenor Navarro. Pela segunda vez, a EMAN é instalada naquele local. Em 1952, ainda sob governo de José Américo, a Escola de Música foi oficializada como instituição pública. Mas sua odisséia retornaria em 1956, no governo de Flávio Ribeiro Coutinho, quando a EMAN teve que ser retirada para construção do edifício Epitácio Pessoa.
Com a desocupação, a Escola de Música se tornou nômade por quase um ano, chegando a funcionar em um dos salões do Palácio do Governo. Foram ministradas aulas inclusive na biblioteca pública, no Tribunal de Justiça e na Academia Epitácio Pessoa. Até que em 1957, foi transferida para uma casa ao lado da Catedral Metropolitana, onde permaneceu por cinco anos, sendo transladada para outra casa, em 1963, ano do término do curso de Canto Orfeônico. A Escola de Música permaneceu nessa última residência até 1974. Mais uma vez foi transferida, retornando ao quarto prédio que ocupou.
Em 1969, durante o governo de João Agripino, formula-se um novo projeto para construção de uma sede definitiva para a EMAN. Mas da mesma maneira que aconteceu na época de Anthenor Navarro, o plano não foi concretizado. No local que seria estruturada a escola, foi construído o colégio Sesquicentenário. Em 1979, a EMAN é transferida mais uma vez e, finalmente, em 1983, no governo de Tarcísio de Miranda Burity, foi afixada no Espaço Cultural José Lins do Rego, onde permanece até hoje.
Porém, o local não é adequado para uma escola de música. “O espaço que a escola ocupa não é o suficiente. Temos quase mil alunos e chegou a um ponto que ela não cresce mais porque não tem estrutura física para crescer”, afirma o professor Marco Antônio. O professor de piano, Clístenes Cabral, lamenta a falta de investimentos por parte do poder público. “A Escola de Música é uma referência de formação em educação musical no estado, pena que esse trabalho que vem sendo desenvolvido não é realmente reconhecido, percebemos isso ao analisarmos o espaço físico e a falta de incentivo na formação e aprimoramento dos professores”.
Um dos maiores problemas é a falta de acomodação sonora. As aulas de saxofone, mesmo em salas fechadas, são ouvidas pelos corredores da escola. O curso de percussão teve que ser transferido para outro local porque dificultava o estudo do piano e principalmente da teoria musical. As pessoas que frequentam o ambiente da Anthenor Navarro devem manter silêncio para que o ensino da viola não seja prejudicado por ser realizado em um local ao lado da sala de recepção.
Para Luís Carlos Durier, vice-diretor da EMAN, as pessoas que fazem a Escola de Música devem lutar pela construção de uma sede para a instituição. “Cabe a nós lutarmos e elaborarmos um projeto que ganhe a simpatia dos professores, funcionários, alunos e todas as famílias envolvidas com a escola, inclusive aqueles que já passaram por ela”. Durier explica que a conquista de um local fixo e adequado para abrigar a instituição deve ser um ideal daqueles que de alguma forma estão envolvidos com a EMAN. 

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