terça-feira, 8 de novembro de 2011

Entrevista


LUÍS RICARDO SILVA QUEIROZ (entrevistado)

Mestre em Educação Musical e doutor em Etnomusicologia, o professor do Departamento de Educação Musical da UFPB mudou-se de Minas Gerais à Paraíba porque o estado nordestino é conhecido como polo de Educação Musical no Brasil. Violonista, Luís Ricardo fala sobre a influência da música na formação humana e a importância da Educação Musical.

Sonare - Professor Luís Ricardo, no que interfere positivamente a música no desenvolvimento intelectual do ser humano?
Luís Ricardo - A música é um forte meio de expressão cultural e de desenvolvimento perceptivo. Ela lida com uma forma de linguagem bastante diferenciada da verbal e escrita, pois trabalha com códigos culturais diferenciados. A percepeção desse código implica no reconhecimento sonoro e no processamento cognitivo e, como consequência disso, trabalha determinadas regiões do cérebro que uma pessoa estudando português ou matemática não desenvolve. Há algo extraordinariamente especial na música, em relação às outras áreas. Ela é diferente, por isso temos a convicção de que a formação plena do indivíduo deveria envolver conheci-mentos musicais, pois possibilitaria um trabalho integral de formação humanística e cognitiva.

Sonare - O que é educar musicalmente uma pessoa?
Luís Ricardo - O princípio de Educação Musical ampliou bastante. Durante um tempo, considerávamos que o ensino da música era algo formal, praticado dentro de uma instituição exclusiva, mas hoje sabemos que Educação Musical envolve uma experiência de vida e um envolvimento cultural muito mais amplo. Então, educar musicalmente é possibilitar estratégias que desenvolvam percepções, habilidades técnicas, reconhecimento cultural e simbólico de aspectos ligados ao fenômeno sonoro musical. Isso pode acontecer numa escola de música, pode acontecer assistindo televisão, ouvindo rádio ou escutando alguém tocar. Educar musicalmente é desenvolver habilidades referentes à percepção e meios de lidar com fenômenos sonoros como forma expressiva, cultural e artística.

Sonare - Existem pesquisas que indicam que o estudo da música modifica certas áreas cerebrais favorecendo o músico em alguns campos, principalmente nas partes que envolvem a sensibilidade, o reflexo e a matemática. Você concorda com estes pesquisadores?
Luís Ricardo - Realmente há trabalhos científicos na área. Sabemos que o som, não apenas o som musical, mas aquele elaborado pelo ser humano de uma maneira geral, tem impacto físico. A percepção do som gera em nosso corpo algumas sensações. A exposição do fenômeno sonoro e a busca de uma compreensão mais abrangente sobre o assunto, levaram ao desenvolvimento de pesquisas que indicam que durante a presença do som, determinadas competências cognitivas humanas são aguçadas. Essas pesquisas, apesar de nenhum estudo científico ser absoluto, têm bases sólidas, mas a música tem outras contribuições culturais e humanísticas, que vão muito além disso, que esses estudos não contemplam. Uma abordagem da música como fenômeno artístico, social e cognitivo, em suas diferentes dimensões, transcendem muito esse tipo de pesquisa, porém, é possível que esses fenômenos aconteçam no ser humano por causa do estudo musical.

Sonare - Qual a importância de se iniciar os estudos musicais quando criança?
Luís Ricardo - O desenvolvimento humano, comprovado pela Educação, segue fases e, em cada uma delas, temos determinadas potencialidades. Como a música é um fenômeno cultural e ao mesmo tempo lida com as diversas outras competências, deveria fazer parte de todas as etapas do desenvolvimento humano, o que geraria formas diferenciadas na percepção auditiva e de conhecimento cultural, já que a música é uma expressão de diferentes sociedades. Como consequência, aconteceria o desenvolvimento de diferentes habilidades, não só para um músico profissional, mas para qualquer pessoa que lida com uma expressão tão representativa na nossa sociedade, que é a música.

Sonare - Você diria então que uma pessoa que estuda música é mais sociável?
Luís Ricardo - Eu diria mais. Uma pessoa que estuda música tem mais condições de lidar com a amplitude do conhecimento que existe no mundo, onde a música desempenha um papel relevante. Mas a música tem funções positivas ou não, por isso ela é importante. Ela é um meio que pode ser usado extremamente para o bem ou para o mal, por isso quem estuda música pode ser mais sociável como também pode não ser, vai depender muito do tipo de educação que se oferece a esta pessoa. Na Educação Musical, tentamos criar caminhos para que os conhecimentos musicais sejam trabalhados e desenvolvidos de forma positiva, como a gente faz na educação como um todo. Não é que o mundo não ensine ou que os conhecimentos que temos na sociedade não sejam válidos, mas quando alguém é educado significa que elaboramos um padrão de educação de forma que o indivíduo possa usar positivamente aquilo que ele aprende, que estuda e sistematiza, é exatamente o que fazemos no processo de formação musical. Eu diria que a pessoa seria mais equilibrada estudando música, como será mais equilibrada se, além da música, estudar artes visuais, artes cênicas, sociologia, matemática... Pensamos numa formação que permita a pessoa lidar com o mundo, em todas as suas dimensões, em toda sua amplitude. Estudar música propiciaria, de fato, uma pessoa com uma formação muito mais ampla, muito mais abrangente.

Sonare - Os conservatórios de música suprem a necessidade de Educação Musical no Brasil?
Luís Ricardo - Não. Os conservatórios de música são muito poucos para atender a sociedade brasileira. Então, de alguma forma eles serão excludentes. O espaço legítimo, para democratizarmos o ensino da música, é a escola de educação básica porque é um espaço onde todos necessariamente deveriam passar. Este seria um espaço que atenderíamos à grande população, enquanto as escolas especializadas seriam uma segunda alternativa para quem quer uma especialização maior, não necessariamente para ser músico, mas uma especialização melhor para lidar com os fenômenos musicais. Acho que a grande questão nos conservatórios é sempre tentar ampliar o máximo possível, mas sabendo que nunca deixarão de serem limitados, se pensarmos no atendimento à população. Quanto aos conservatórios, é preciso estabelecer estratégias para que eles sejam muito mais ligados aos conhecimentos musicais do mundo, não se isolando em metodologias ou repertórios unilaterais, como durante muito tempo foi e como tem mudado consideravelmente nos últimos anos.

Sonare - Quais os pontos positivos da EMAN para o início dos estudos musicais de um músico erudito ou popular, visto que, de lá têm saído pessoas para a área popular, erudita e de composição? 
Luís Ricardo - A EMAN é uma escola bastante antiga, portanto, uma escola que vem desempenhando um importante papel na cidade de João Pessoa, desde a década de 30. A força e importância da EMAN é facilmente comprovada quando observamos contextos musicais como a Orquestra Sinfônica, tanto a profissional quanto a Jovem, o próprio Departamento de Música e área de música da UFPB, como um todo, e encontramos muitos profissionais que passaram por lá. A escola é um espaço legitimado e consolidado como espaço de formação de quadros profissionais e amadores ligados à música da sociedade pessoense e do estado da Paraíba. Certamente é uma escola que tem uma importância grande, uma escola pública, aberta a receber pessoas de diferentes classes sociais e localidades da cidade, e que vem se adequando, como todo ensino de música, às necessidades e aos princípios da sociedade contemporânea. Pensando no mercado de trabalho e também no processo de formação continuada, ou seja, tanto inserir no espaço músico para atuar ou continuar nos estudos de graduação ou pós-graduação, fazem com que a escola tenha que lidar tanto com este universo da música popular quanto da música erudita. Acredito que ela tenha uma importância nos dois níveis e que com o amadurecimento natural, que o tempo propicia, as transformações vão ocorrendo, e cada um desses eixos vai sendo equilibrado de acordo com o que é necessário.

Sonare - Para você, o que é ser um bom estudante de música?
Luís Ricardo - Alguém disposto a adquirir diferentes habilidades e percepções relacionadas ao mundo sonoro. Alguém que se dedica, que estuda música entendendo como conhecimento base, que vai somar para sua formação humanística, cultural e intelectual. Eu associo o padrão de bom estudante muito mais a forma como a pessoa se dedica, como valoriza o estudo musical, do que necessariamente com o desenvolvimento natural de aptidões, pois a história do “dom” é algo que já vencemos, pois o ensino da música é para todos. Um bom estudante vai ser aquele que se dedicar e realizar um trabalho consistente, buscando, de fato, uma formação sólida naquele nível que lhe interessa dentro dos objetivos que ele traça para a sua própria vida, alguns vão buscar isso mais profissionalmente, outros, como uma forma de adquirir conhecimentos necessários para lidar com o mundo.

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