terça-feira, 8 de novembro de 2011

Uma escola musical


A Escola de Música Anthenor Navarro é a instituição mais antiga de ensino musical da Paraíba. Com importância reconhecida na história da Educação Musical do estado, oferece vagas disputadas por crianças, adolescentes, jovens e adultos. Contando com cursos especializados em instrumentos clássicos, técnica vocal e teoria musical, a Escola de Música tem sido referência dentro e fora da Paraíba.
A EMAN oferece o curso de musicalização para que os alunos aprendam a teoria musical e o solfejo. Durante o ensino da teoria, os estudantes aprendem a escrever e ler partituras, estudam escalas musicais, ritmo, história da música e harmonia musical. Também são ensinadas técnicas de leitura e apreciação de composições de variados períodos da música clássica. O aluno aprende a solfejar, que significa cantar as notas musicais em uma partitura. O solfejo é obrigatório durante quase todo curso de musicalização e tem o objetivo de trabalhar a afinação e a percepção dos alunos e pôr em prática o estudado na teoria.
Ao se matricular na EMAN, o aluno cursa o primeiro período de musicalização. Durante esse semestre, ele é submetido a avaliações e recebe notas referentes aos estudos de teoria musical e solfejo. Ao final desse período, o aluno opta pelo instrumento que deseja tocar. Por causa dos poucos professores disponíveis, o interessado precisa concorrer a uma vaga para estudar o instrumento escolhido. As médias dos alunos concorrentes de cada instrumento são comparadas e os responsáveis pelas maiores notas conquistam o direito de preencherem as vagas.
A musicalização é imprescindível a todos os estudantes da EMAN e tem duração de seis anos, sendo divididos em doze semestres. Os alunos aprendem teoria musical em paralelo ao instrumento, sendo, por semana, duas aulas teóricas e uma instrumental. A EMAN oferece os cursos de flauta transversal, flauta doce, oboé, clarinete, saxofone, fagote, trompete, violino, viola, violoncello, violão (que pode ser clássico ou popular), piano, técnica vocal e percussão. O tempo de duração dos cursos varia de acordo com cada instrumento, sendo o mais longo o de piano, com duração de seis anos.
A professora Carol Galvão é exemplo de como os alunos da Anthenor Navarro se destacam na seleção para ingresso na Universidade. Estudante da EMAN desde os 13 anos, ao terminar o Ensino Médio, Carol passou no vestibular para Música. “Lembro que estava no oitavo período de musicalização quando prestei vestibular para o curso de Bacharelado em flauta transversal da UFPB. Passei em primeiro lugar por causa do bom preparo do ensino teórico e instrumental da Escola de Música”, afirma a professora que hoje é bacharel em flauta e ensina na EMAN.
Algumas pessoas se interessam pela Escola de Música com o objetivo de prestarem o vestibular. Esse foi o caso de Alisson Siqueira, que cursou dois anos de musicalização e afirma que a EMAN o auxiliou a conquistar uma vaga na UFPB. “A Escola de Música esclareceu muitos assuntos que eram duvidosos para mim e me ensinou outros que, com certeza, me ajudaram no vestibular. A prática do solfejo aprendida na EMAN tem me auxiliado muito no curso da Universidade”, explica Alisson, estudante de Bacharelado em Música, habilitação em Composição.
A Escola de Música Anthenor Navarro sustenta, até hoje, o título de Instituto Superior de Educação Musical. Isso se deve porque no início de seu desenvolvimento, quem se formava em piano pela EMAN era considerado licenciado. A Escola de Música estava se estruturando para ampliar a licenciatura a todos os outros cursos de instrumentos oferecidos por ela. Com o abandono gradativo do Governo estadual, a Anthenor Navarro foi esquecida e não conseguiu alcançar esse objetivo. Embora nos certificados dos concluintes ainda conste o termo “Instituto Superior”, a EMAN não pode ser considerada formadora de profissionais em música em nível superior.
Ainda que nos registros do Governo a Escola de Música tenha apenas uma diretora, há um vice-diretor e algumas coordenações. Essa organização foi instituída pela própria diretora para facilitar o funcionamento dos trabalhos da EMAN. Os instrumentos de sopro têm um professor coordenador de suas atividades, assim como tem um coordenador para os instrumentos de cordas, piano, percussão, técnica vocal e musicalização. “Essas coordenações foram criadas para auxiliar a direção com os trabalhos específicos de cada área. Cada coordenação é responsável por informar a quantidade de vagas disponíveis nos instrumentos, solicitar consertos, enfim, facilitar o trabalho pedagógico da Escola”, esclarece Edilene Araújo, pedagoga e coordenadora geral da Anthenor Navarro.

Recursos financeiros

A instituição conta com mais de 850 alunos matriculados por semestre, sendo provenientes de diversas classes sociais. Na escola encontramos até mesmo filhos de políticos do Estado. Apenas cinco docentes são funcionários oficiais do Governo e 24 professores são prestadores de serviço. Ainda há outros que são pagos pela caixa escolar. “Não é correto um órgão estadual cobrar mensalidade, porém, como o Governo não investe na Escola de Música, todo semestre é cobrada uma taxa para o aluno por cada curso que pretende fazer”, esclarece a diretora Vólia Simões, que afirma que sem essa taxa semestral não seria possível prosseguir com os trabalhos da EMAN. “Sem esse dinheiro é impossível pagar todos os professores que aqui ensinam”, continua Vólia.
Os recursos provenientes da caixa escolar são adquiridos a cada seis meses, durante o período de matrículas. O dinheiro é revertido para o pagamento de alguns docentes, conserto de objetos como ventiladores, máquina de fotocópias, aquisição de ar condicionado, de novas partituras, CDs, cadeiras, manutenção e compra de instrumentos musicais, pintura do ambiente, e todos os outros possíveis gastos. “A máquina para reprodução das partituras foi adquirida pela Escola de Música, sem repasse do Governo estadual”, afirma Walter da Silva, fotocopiador da EMAN. A Escola de Música possui dez funcionários, sendo oito sustentados pelo estado e dois pela caixa escolar.
Segundo Vólia Simões, a EMAN já procurou apoio financeiro de empresas particulares, mas não conseguiu êxito. “Já tentamos patrocínio, mas a Paraíba parece que resiste um pouco à cultura. Tem sido um trabalho penoso e difícil”. Vólia também acredita que a dificuldade em conseguir patrocínio torna-se maior porque o grande investimento financeiro que a Escola poderia realizar seria em recursos humanos e não em objetos. “O Governo deveria realizar concurso para professores da Escola de Música a fim de incentivar o aprimoramento profissional e diminuir esse problema financeiro enfrentado pela EMAN há muitas décadas”, sugere Suely de Fátima, funcionária federal e mãe de uma aluna da Escola de Música.
            Outra saída para resolver a situação financeira seria transformá-la em uma autarquia, como sugere George Albert de Araújo. “Se a Escola de Música fosse uma autarquia do Estado, poderíamos ter mais autonomia e responderíamos diretamente ao gabinete do governador. Poderíamos, inclusive, angariar fundos e cobrar mensalidade”, explica George, professor de flauta transversal. Ele também acredita que a EMAN poderia se tornar um departamento da Universidade Estadual. “Sabemos que são sugestões difíceis de serem acatadas pelo Governo, pois os políticos acreditam que trabalhar com música não atende ao que o mercado exige. Porém, se conseguíssemos, seria muito bom para a EMAN, para seus professores e alunos, pois a Escola de Música tem recursos humanos bastante qualificados”.

Grande procura

            A Escola de Música abre em torno de 210 novas vagas por semestre para novatos, mas a procura sempre excede esse número. Para conseguirem vaga, os interessados chegam ao Espaço Cultural no primeiro dia de matrícula durante a madrugada. Vários são os motivos da grande concorrência pelas vagas dessa instituição. Para Flávio Luis, supervisor de empresas, o método de ensino da Anthenor Navarro é o diferencial. “Desde criança sempre gostei muito da música bem tocada e cantada. Escolhi a EMAN porque ela não ensina apenas a tocar um instrumento, mas trabalha muito com a percepção musical, ao ponto de sua voz poder ser seu próprio instrumento”, afirma Flávio, que cursa o primeiro período de musicalização.
Todas as terças-feiras, o aposentado Paulo Lima leva sua filha à Escola de Música. Enquanto ela está na aula, seu pai a espera nos bancos do Espaço Cultural. Paulo, que mora na cidade de Santa Rita, não mede esforços para beneficiar sua filha, de 14 anos, com a música. “Ela desde criança gostava de orquestras. Até que pediu para comprarmos um violino e ela começou a tocar sozinha. Depois, por indicação de amigos, chegamos à Anthenor Navarro”. Valber de Amorim já tocava em bares antes de ingressar na Escola de Música. “Eu toco popular e como percebi que precisava me aperfeiçoar, resolvi estudar na EMAN porque necessitava de conhecimentos teóricos e precisava melhorar minha performance como pianista”.
            Alguns alunos que iniciaram seus estudos musicais na EMAN estão nos Estados Unidos e Canadá se aperfeiçoando em seus instrumentos. Outros ingressaram em orquestras do Rio Grande do Norte, Sergipe, Pernambuco e Brasília. Para Daniel Seixas, pianista e professor da EMAN, os bons estudantes de música são aqueles que dedicam horas de estudos musicais em casa. Para ele, é indispensável a aplicação prática e cotidiana dos assuntos que foram ensinados na sala de aula. “Creio que a música requer maior dedicação de estudo do que outras áreas de conhecimento. Isso porque ela envolve o emocional, a razão, refinamentos auditivos e fisiológicos que só serão conquistados com muitas horas de estudo”.
            Para saxofonista Costinha, é um privilégio lecionar na Escola de Música. “Ensinar na EMAN tem um significado muito grande para mim. Além de ser uma das escolas mais antigas da Paraíba, lembro que quando cheguei do interior não havia o curso de saxofone na Escola, por isso fui estudar fagote na UFPB. Posteriormente, a Escola passou a ensinar o sax e tive o privilégio de acompanhar toda essa história de desenvolvimento da instituição”.
O pianista Daniel Seixas afirma que a Anthenor Navarro é essencial em sua vida como profissional. “Ela ocupa um lugar especial no meu coração, pois dela veio toda minha base pianística e de conhecimentos teóricos”. Para Luís Carlos Durier, vice-diretor da EMAN, a Escola de Música “é a minha casa, minha vida, meu lar. É o meu ideal de vida. A Escola de Música Anthenor Navarro é o meu céu”.

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